6. MEDICINA E BEM-ESTAR 31.7.13

1. UM CORAO DE OURO
2. NOVOS TESTES PARA A DEPRESSO

1. UM CORAO DE OURO
Cientistas israelenses criam partes de msculo cardaco feitas com partculas do metal. Ele melhorou o envio de sinais eltricos entre as clulas, fazendo com que o novo tecido funcionasse como o de um corao de verdade
Cilene Pereira

Pesquisadores israelenses anunciaram na ltima semana terem conseguido superar um dos principais obstculos da medicina regenerativa na sua tentativa de criar, em laboratrio, tecido cardaco. Usando nanopartculas de ouro, uma equipe de cientistas do Departamento de Microbiologia Molecular e Biotecnologia da Universidade de Tel-Aviv desenvolveu pedaos de msculo cardaco no qual a transmisso de sinais eltricos entre as clulas  ao vital para o bom funcionamento dos tecidos  ocorreu sem limitaes.

At hoje, garantir o desempenho dessa funo era um dos grandes problemas encontrados para que partes do msculo cardaco fossem criadas pela cincia e de fato apresentassem funcionalidade. Na experincia agora realizada em Israel, a introduo do ouro na fabricao dos tecidos permitiu que eles manifestassem capacidade de contrao  com frequncia e uniformidade  muito prxima  apresentada pelo corao humano.

A escolha pelo metal se deve a sua capacidade de ser um bom condutor dos sinais eltricos enviados de uma clula a outra. Os modelos da maioria dos biomateriais usados para construir tecidos do corpo humano no apresentam essa condutividade. Basicamente, eles bloqueiam os sinais eltricos de uma clula para suas vizinhas, tornando extremamente difcil a tarefa de fazer com que todas as clulas batam de forma unificada, explicou  ISTO Michal Sevach, um dos autores do experimento. Para superar essa limitao, usamos modelos compostos por nanopartculas de ouro.

A gerao de pedaos de msculo cardaco em laboratrio tem sido uma busca de pesquisadores do mundo todo. O objetivo  que eles possam ser colocados e assumam as funes de partes do corao atingidas por problemas como o infarto do miocrdio. Nesse caso, a falta de irrigao sangunea caracterstica do evento leva  morte as clulas do msculo cardaco onde ocorre o problema. O que surge no lugar  um tecido fibroso, incapaz de se contrair. Em ltima instncia, isso pode levar  insuficincia cardaca, disse Sevach. Atualmente, uma das solues para casos mais graves  o transplante, mas os cientistas se esforam para encontrar algo mais simples e acessvel.
 Animados com o resultado obtido, o grupo israelense planeja testes para investigar o potencial dos tecidos em modelos animais e, posteriormente, em estudos realizados com seres humanos.


2. NOVOS TESTES PARA A DEPRESSO
A doena que afeta 17 milhes de brasileiros poder ser detectada por exames de sangue e de imagens cerebrais e no mais apenas por avaliao dos sintomas feita pelo psiquiatra. Esses recursos tambm permitiro um melhor tratamento
Mnica Tarantino

Cerca de 17 milhes de brasileiros sofrem de depresso. Em face da gravidade do problema, a cincia procura formas de superar os obstculos ao seu controle. Os dois principais so a dificuldade de obter um diagnstico preciso  hoje, ele  realizado basicamente pela avaliao dos sintomas feita pelo psiquiatra  e as limitaes para melhorar a resposta de cada paciente aos antidepressivos. A estimativa  de que apenas 30% dos indivduos melhorem com a primeira opo indicada.

MARCADORES - Zanetti, da USP, estuda a aplicao de exames de imagem para rastrear alteraes cerebrais associadas  doena

Em relao a solues para este ltimo problema, a novidade  a chegada de exames capazes de apontar de que maneira um paciente responder ao remdio. Comeou a ser usado no Brasil, por exemplo, o teste MD Metal. A partir de uma amostra de saliva, ele analisa o DNA para identificar variaes em genes ligados ao metabolismo e a eficcia de medicamentos psiquitricos. Ajuda o mdico a prever a resposta a mais de 40 antidepressivos, estabilizadores de humor e antipsicticos, diz o patologista Hlio Torres Filho, diretor do Laboratrio Richet, no Rio de Janeiro, que oferece o teste h um ms.

No Instituto de Psiquiatria da Universidade de So Paulo, pacientes que apresentam dificuldade na adaptao ao tratamento podem ser submetidos a um teste que analisa alteraes genticas associadas ao ritmo de absoro dos remdios. Estudos mostram que 20% das pessoas os metabolizam mais rpido ou mais lentamente, o que interfere no sucesso do tratamento, explica o psiquiatra Marcus Zanetti, do Laboratrio de Neuroimagem da USP. Esse tipo de investigao poder ser feito tambm por exames de imagem. Recentemente, a neurologista Helen Mayberg, da Universidade Emory (EUA), identificou padres cerebrais diferentes que predizem melhor aceitao  terapia ou aos remdios: pessoas com atividade maior na regio da nsula direita do crebro, rea ligada s emoes, se do melhor com antidepressivos do que com terapia. Menor atividade metablica na regio indica os que se saem melhor com terapia. So pesquisas promissoras. Atualmente essa escolha  feita com base nos sintomas, mas  comum trocar o remdio porque no surtiu efeito, diz o psiquiatra Eduardo Nogueira, da PUC/RS, onde esto em andamento experimentos para aprimorar o diagnstico e o tratamento da doena.
 No que diz respeito ao diagnstico, os cientistas esto  procura de indicadores  substncias no sangue ou alteraes cerebrais associadas  doena. Queremos definir marcadores equivalentes aos que os cardiologistas identificaram no sistema circulatrio para o risco de doenas cardiovasculares, disse  ISTO o pesquisador Peter Williamson, da Universidade Western (Canad).

PESQUISA - Nogueira, do Instituto do Crebro da PUC/RS, avalia pacientes em busca de biomarcadores que ajudem a definir o melhor tratamento

Algumas informaes j foram obtidas e originaram algumas possibilidades de testes. J se sabe, por exemplo, que os pacientes costumam apresentar menor fluxo sanguneo em determinados pontos do crebro. Um teste de imagem cerebral que registra a ao e que pode ser adotado  o PET. Outro instrumento possvel  medir as ondas cerebrais por meio de eletroencefalograma (80% dos pacientes tendem a ter padres anormais durante o sono). Na rea de compostos qumicos identificados em exames de sangue, h, entre outros, a medio de uma substncia (5-HIAA) associada  doena e o chamado teste de supresso de dexametasona. Este ltimo ajuda a diferenciar o diagnstico de depresso do de esquizofrenia.

Na PUC/RS, o neurorradiologista Ricardo Soder ir explorar o potencial da ressonncia magntica funcional aplicada a doentes com transtornos como a depresso. Ele procura alteraes na forma como as reas do crebro se conectam para trabalhar em conjunto. As imagens so comparadas s de pessoas sem as doenas. O objetivo  encontrar um teste para ajudar no diagnstico, diz.

Outro campo explorado  achar marcadores capazes de revelar a predisposio  enfermidade. Na Universidade Johns Hopkins (EUA), cientistas anunciaram um possvel marcador para identificar gestantes com maior risco de depresso ps-parto. So dois genes que se mostram alterados em mulheres que tiveram depresso ps-parto, explicou  ISTO Zachary Kaminsky, autor do estudo. O pesquisador acredita que a deteco das alteraes qumicas associadas  ao desses genes poderia antecipar com 85% de acerto o risco dessa modalidade da doena.

